sala de estar - crônicas

Na sala de estar encontram-se as lembranças: os móveis que confirmam que o tempo passa, os quadros com paisagens jamais visitadas, os livros que imprimem aprendizados e as foto-grafias contadoras de suas próprias histórias.

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A menina e o Tejo, fotografia digital de Deborah Perrotta Outubro de 2019

Raphael me passou uma carta de Caio Fernando Abreu. Fazia dez dias que Caio tinha viajado, estava numa casa de praia, e escreveu que parecia que se passara um mês. Hoje, faz dez dias que completo o distanciamento social. Mas não vou lamentar o tempo, a dor das costas ou as marcas que já ficam nas coxas – isso porque, quando não me estico, transformo-me em uma cama. Só quero escrever, porque sinto falta de sentir-me mais carne do que osso. Farei disto uma carta a quem quiser ler, não a um alguém específico. Escrevo para contar as novidades: o quintal foi carpido – embora ainda não tenhamos arrancado as batatas-doce –, e, com a poda do pé de boldo, quando agora me debruço à janela, consigo ver a terra, a sombra e um pedaço do sol. Não tenho conseguido focar em imagens, essas que estão em telas, só nas que imagino – e brevemente –  de lá fora. Amigo meu disse que a vida corre solta; talvez minha imaginação estivesse ancorada à desolação. Mas sempre tem porta fechada, sala fechada, portão fechado. Não sei quem os guarda; seja quem for, espero que esteja em segurança. De todo modo, fico pensando nos aromas dos corredores, da passagem daquele banheiro e do hall do teatro; será que ainda estão ali? Guio-me com esse olfato, porque minha memória foi construída com poeira de carpete, com o couro rasgado do sofá da sala e com o cheiro do leite materno.

Briguei com a minha mãe, algo que me desconforta, ainda mais porque foi uma briga gerada por conta de duas coisas que detesto: o presidente e a igreja.  Culpei-a pelos anos que me senti infeliz e obrigado a seguir a fé de meus pais. E já vai fazer dez anos que não frequento igreja alguma, que essa porta felizmente me está fechada. Insisto, no entanto, em ferir-me com esse outro aroma, indecifrável e abjeto, de quem não mais sou e que ainda parece me prender. Quero que blasfemem, é isso, quero vingar-me na boca d'outrem, porque a minha já está calejada. Fim da noite, sem muita surpresa, porque quem ama bate à porta, minha mãe deu-me um beijo. A paz se aceitará por mais uns dias, ou até que se pronuncie o presidente. Caio aconselhou ao amigo-padre: se quiser escrever bem, tem que ser como as unhas arrancando sangue. Sorte a minha que as unhas estão intactas, raro momento, e agora arranham-me os braços, a nuca e a bunda. Não sei como projetar o futuro: o resto das semanas, ou o tempo que me resta a curvar-me em lençóis de cetim. Não carrego a esperança, ou o medo exacerbado, ou a vontade de qualquer coisa. Eu só espero continuar abrindo a janela, mesmo dentro desse meu sobrado, para ver um pedacinho do sol. Olhe bem, reforço, essa não é uma imagem de esperança. É só a imagem que vejo de meu quarto. Isso não importa?

escrito por Davi Mello,

quarta-feira, 25 de março de 2020, 1h54

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