sala de estar - crônicas

Na sala de estar encontram-se as lembranças: os móveis que confirmam que o tempo passa, os quadros com paisagens jamais visitadas, os livros que imprimem aprendizados e as foto-grafias contadoras de suas próprias histórias.

planta_odradek_p.png
semtítulo.jpg

Durante a infância, eu achava os meu pais super populares.

Quase todo fim de semana, ao descer as escadas para tomar o café da manhã, eu e minha irmã nos deparávamos com um colchão largado no chão, próximo ao sofá, e as roupas de cama bagunçadas, recém acolhidas por uma visita. Na cozinha, a crispela ardendo no óleo e o cheiro de café enrolado aos risos.

Naquela época, penso que todos nós éramos muito mais felizes. Ou, talvez, no olhar inocente de criança, só conseguia enxergar aquilo que tinha cor.

Meus pais recebiam com frequência uma amiga da igreja e sua filha. E também um outro sujeito misterioso de nome Valdemar.

Valdemar.

Eu queria muito me lembrar dele, de seu rosto, de sua voz. Mas toda vez que fecho o olhos, e contorno na mente o seu corpo, percorro suas mãos manchadas - e juntas, em sinal de meditação -, e o seu rosto é apenas uma nuvem. Vejo também seus cabelos grisalhos, desesperados para embranquecerem; contudo, não sei qual era a cor de seus olhos ou o traço de seu lábios. Às vezes, imagino-o com um rosto longo, esguio, um queixo meio quadrado. Lembro que Valdemar era magro, e eu sentia os ossos de seus joelhos quando ele me pegava no colo. Lembro também do pulôver que usava. Marrom e felpudo. Um marrom desses da cor de nossas lembranças.

Valdemar nos levava vinis e brinquedos antigos. Achei estranho, por exemplo, quando ele me deu um caminhão de bombeiro des-botado e um fusca branco à minha irmã. Como assim, um carrinho para uma menina? E um carrinho para mim, que tampouco gostava! Mas daquele caminhão nunca me esqueci. Nem de um disco que quase trincava a vitrola de tanto ser tocado. Era um álbum de canções infantis em espanhol. Desde então, o verso mais antigo de minha vida e que constantemente recordo é assim: "Tres minutitos de alegría es lo que dura una canción, mucho de sueño y fantasía con ternura y emoción".

Sem título, fotografia 35mm de Deborah Perrotta, em algum lugar do passado

Eu e minha irmã cantávamos o dia todo, subindo e descendo escadas, atrapalhando o almoço do Valdemar, que amava a macarro-nada de minha mãe.

 

Minha irmã sempre conta que um dia Valdemar a chamou de lado e cochichou: "Olha, estou indo embora. Obedeça seu papai e sua mamãe. E cuide de seu irmão".

Num domingo, voltando da igreja, desco-brimos, ainda no carro, que Valdemar havia morrido. Foi meu primeiro contato com a morte, e, sinceramente, aquilo não me abalou muito. Acho que eu não compreendia direito o que significava essa "partida". Minha concepção de morte era tornar-se um anjo no céu. Mas meus pais choraram muito, assim como minha irmã. Não me lembro se naquela manhã eu derramei alguma lágrima, mas sei que per-guntei ao meu pai o porquê de Valdemar ter morrido.

"Ele estava no hospital, bastante doente".

Até hoje, assim como não consigo recordar do rosto de Valdemar, a imagem daquele senhor misterioso num leito de hospital, a pessoa mais velha que eu conhecia - e também a mais legal! -, me é bastante nebulosa. Como um homem tão cheio de vida e tão sábio poderia ficar doente?

Nunca mais ouvi aquele disco. Com o tempo, os CDs substituíram os vinis e as vozes em espanhol se esconderam em alguma poeira na vitrola. Aquela outra amiga dos meus pais se mudou com a filha. E com elas foi o órgão que minha mãe costumava tocar. A casa passou a respirar apenas o violão de papai, que logo também deixou de tocar. O colchão, aquele que acumulou tantos cheiros e histórias, nunca mais se deitou no chão da sala.

E eu, no meio da madrugada, pensando nas vindas e partidas, só consigo me lembrar que "tres minutitos de alegría es lo que dura una canción".

escrito por Davi Mello,

sábado, 18 de abril de 2015, 00h28

© 2020 - Experimento Odradek - Domicílio Incerto é uma criação de Davi Mello e Deborah Perrotta.

Proibida a reprodução total e/ou parcial do conteúdo deste site.