sala de estar - crônicas

Na sala de estar encontram-se as lembranças: os móveis que confirmam que o tempo passa, os quadros com paisagens jamais visitadas, os livros que imprimem aprendizados e as foto-grafias contadoras de suas próprias histórias.

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"A lua do dia 11.03.2020 (ou o conto da lua que vaga)"


Acordei com a luz da lua. São 05:52. No Brasil, a essa hora, seria o sol que teria me acordado. É certo que a luz prateada que desenha sombras de um cinza azulado na parede do meu quarto é, indiretamente, o sol.


Curioso.


Pássaros cantando, será que eles também estão confusos com essa luz que faz sombra na noite?


O prédio da frente não é muito alto, que sorte. Se bem que poderia ter 20 andares e não faria diferença, pensei, depois de constatar a exata precisão com que a lua desce entre os dois prédios da frente.


A luz da lua me acordou, e eu, desorientada, ao abrir os olhos, descartei logo as poucas possibilidades: é o sol? Não, é noite. Um poste, então? Não tem poste ali, Deborah.


Agora examino como aquela ousada lua pousa sobre a varanda da frente. Embalada por um anseio de criança (tipo aquela curiosidade que é desperta ao observarmos uma formiga que segue seu curso livremente mesmo se tentamos colocar obstáculos no seu caminho); aguardando atentamente seus próximos passos, fui tomada pela estranha consciência de que aquele momento era quase como um segredo: eu, observando a lua, ali, que me acordou sem querer.

Sem título, fotografia analógica, sem data. Adquirida em um antiquário de Varsóvia em Dezembro/2018
da coleção particular de Davi Mello

Mal sabe ela que tinha alguém em Turim espiando seu silencioso passeio nos últimos minutos da noite. Talvez só eu e os pássaros. A lua desce um pouco mais. 

 

Ou talvez alguém que acordou para trabalhar… talvez… Talvez alguém que… E ali, me adormentei com a luz da lua. Aquela mesma lua que me acordara.

 

{Seria também belo se terminasse assim.
A verdade é que pegando no sono, comecei a escrever. Não queria dormir antes de registrar de alguma forma a inspiração que aquela luz me trouxe. Ao terminar de jogar as palavras no papel meio assim, sonolentas e preguiçosas, e ainda despreparadas para compôr uma ideia concreta, olho para o céu:

já amanhece e é de um azul-claro tristonho. A lua se foi e aquela luz prata ainda ecoa em mim. No fim, perdi o sono e mais um dia começou.}

escrito por Deborah Perrotta,

quarta-feira, 11 de março de 2020, 05h52

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