sala de estar - crônicas

Na sala de estar encontram-se as lembranças: os móveis que confirmam que o tempo passa, os quadros com paisagens jamais visitadas, os livros que imprimem aprendizados e as foto-grafias contadoras de suas próprias histórias.

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Fotografias 3x4
Davi Mello e
Deborah Perrotta,
1997 a 2018

Eu vi um amigo envelhecendo. Já não são só alguns fios brancos, e o rosto nem é lá enrugado, mas existe algo em seu olhar que eu não enxergava há dez anos. Uma vez, amiga minha disse: "fulano é bonito, já tem cara de homem". Eu tinha a mesma idade que esse outro, mas me diziam que eu tinha "cara de moleque", como se ter cara de moleque não fosse ter "cara de homem". Isso há uns 5 anos. Vendo o meu amigo, lembrei que, de pequeno, identificava esse tipo de olhar como "olhar de pai", quando você olha para a pessoa e consegue dizer: esse já deve ser pai, ou poderia ser. E fiquei pensando nisso, quando meu pai foi pai pela primeira vez, com seus 27 anos -- a idade que farei mês que vem. Nessa época, não acho que pensassem que ele tivesse "cara de pai". Mas vi algumas de suas fotos. Veio me mostrar o RG, ainda com uma foto antiga. Disse que eu me pareço com ele quando tirou esse retrato. Na verdade, não se lembra da idade exata, mas frisou "que já tinha cara de homem". Acho que envelhecer também é isso, perceber-se no olhar do outro.

escrito por Davi Mello,

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019, 01h22

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